Cultura: Vai ter chuva de livro em Manaus na terça-feira (23)!

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Encontrar livro enquanto rega as plantas, quem nunca?

Já pensou estar andando pelo Centro de Manaus e, do nada, aparecer um livro na sua frente? Que maravilha seria, não é, minha gente? E se eu disser que isso vai acontecer de verdade na próxima terça-feira (23)? Sim, o Centro Histórico da nossa querida cidade vai ser invadido por livros, no encontro “Leve Este Livro Para Você”. A iniciativa é do pessoal do Global Shapers Manaus, e acontecerá a partir das 19h, no Largo São Sebastião.

Durante essa ação, serão distribuídos marcadores de texto com a mensagem meiga e sincera “leve este livro para você”. Quem receber um marcador deve compartilhar seus livros, deixando-o em algum lugar. Assim que a pessoa que levou a obra para casa terminar de ler, deve manter o ciclo, doando o livro também. No verso, os marcadores têm espaço para o nome de cada pessoa que já leu a obra e data da doação.

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Essa não é a primeira vez que o “Leve Este Livro” é realizado em Manaus. Há menos de um mês, o grupo promoveu a ação no Manauara Shopping. Lá, foram deixados livros em diversos locais, como bancos, mesas e até em banheiros.

Quem topar o desafio pode levar os livros para o Largo, na terça, ou só pegar os marcadores para distribuir em lugares diferentes. Para que a ideia se espalhe mais rápido, os doadores devem tirar foto dos livros “abandonados” e publicar nas redes sociais com a hashtag #LeveEsteLivro.

E aí, quem vamos?

Britney também quer livro, gente!

Britney também quer livro, gente! 

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Literalmente na pior em Paris e Londres

mob-parisO título do livro “Na pior em Paris e Londres” não expõe nem de longe a realidade abordada na primeira obra assinada pelo pseudônimo inglês George Orwell. Uma Paris de cozinhas imundas, plongeurs mal pagos e habitada pelos tipos de pessoas mais nojentos e desorientados é apresentada antes de uma Londres cujos albergues da década de 1930 entram em conflito com os atuais destinos preferidos de jovens viajantes mochileiros.

Antes de falarmos sobre o livro em si, vale destacar que a obra se refere ao período vivido por Eric Arthur Blair antes de virar romancista e assumir o nome George Orwell para publicar artigos jornalísticos e manuscritos. “Na pior em Paris e Londres” é contado em uma narrativa envolvente, porém cansativa. Não me entenda mal; passei da fase de esperar que todos os enredos caminhem para um destino agradável. O que me deixou intrigado, e especialmente deprimido, é que a história de Orwell não parece ter nem mesmo um fecho de luz durante uma jornada sofrida, esfomeada e à beira da perda de personalidade. Sabe quando um autor leva o personagem principal até o fundo do poço e, como mágica, tudo promete ficar bem? Orwell não se preocupa em fazer isso na obra de estreia no mundo literário. Quero dizer, algumas promessas de emprego são feitas ao narrador por companheiros mendigos recém-conhecidos ou velhos amigos igualmente perdidos financeiramente, mas todas são refutadas quase que imediatamente pelo leitor – e até mesmo pelo autor.

george-orwell-bbcAcredito que o maior motivo para tais complicações deve-se ao fato de ser uma narrativa real (ou pelo menos próxima da realidade vivida pelo britânico). Não que a vida seja plena de desastres, mas quem não passa por aqueles momentos em que saídas claras não são vistas por olhos cegos de tristeza e profunda depressão? Não me atrevo a abordar as dificuldades da vida por serem complexas, particulares e honestamente cansativas e entediantes. A questão é que quando digo que fiquei realmente deprimido durante a leitura, estou sendo absolutamente literal. O leitor é envolvido em acontecimentos estarrecedores e posto em ambientes inimagináveis por aqueles que contam com um salário no fim do mês para pagar pelas regalias de uma vida simples e satisfatória. E isso me leva a pensar sobre como Orwell aborda a perda da personalidade como um resultado da pobreza:

“Você descobre o tédio e as complicações mesquinhas e os primórdios da fome, mas descobre também o grande aspecto redentor da pobreza: o fato de que ela aniquila o futuro. Quando tudo o que se tem na vida são apenas três francos, você se torna bastante indiferente: os três francos vão lhe alimentar até o dia seguinte e você não pode pensar adiante disso. Você fica entediado, mas não tem medo”.

O parágrafo me chamou a atenção pelo sentimento de pura dormência trazida pela pobreza e a perda do “luxo” de se preocupar com uma vida a longo prazo e a urgência em conseguir apenas a sobrevivência do dia.

Outra virtude apresentada pelo autor é a fidelidade a amizades antigas. Dentre vários exemplos – de Boris, em Paris, e Paddy , em Londres -, o primeiro deixa o narrador sem emprego e sem moradia. Não que o amigo assim o desejasse, mas promessas na época pareciam significar muito mais do que um aperto de mãos entre dois sujeitos sofrendo com um sistema econômico decadente.

Após uma sequência de desgraças em Paris, o narrador muda-se para Londres para encontrar uma realidade ainda pior e desesperadora, não fosse a dormência trazida pela miséria. É na capital inglesa que Orwell se depara com a real mendicência e a legislação antiquada londrina em relação a pedintes e aqueles que tinham o suficiente para comprar o próprio pão. É nesta parte da história que vemos um Orwell tão visionário e futurístico quanto McLuhan.

O jornalista ensaia em dois capítulos inteiros sobre o que seria suficiente para melhorar a qualidade do serviço em hospedagens públicas e albergues baratos. O autor afirma que o governo, partindo do pressuposto de que o mendigo é incapaz de fazer qualquer coisa senão pedir e sujar a visão da cidade, apenas recebe o desafortunado com duas fatias de pão e chá. A sugestão de fazer com que os sem-teto produzam o próprio alimento em hortas instaladas nos abrigos lembra a atual ação de presídios, clínicas de reabilitação e próprias instituições que abrigam pessoas sem moradia, onde há um conjunto de atividades que devolvem a personalidade e a autonomia, além de tirá-los do status de apenas um número no livro de internos e dando-lhes de volta nomes e profissões.

O fim da história chega abruptamente e sem muitas explicações sobre o que o destino do errante jornalista o reservaria. Porém, saber que o futuro do narrador não mais se limitava à refeição do dia ou onde iria deitar a cabeça durante a noite já é o suficiente para o leitor, que acompanha Orwell em uma deprimente e alarmante realidade.